Conforme seguem os dias com o novo coronavírus, sem sinais de arrefecer sua proliferação no Brasil e em outros países do sul global, reemergindo em outras ondas nos países do norte, e com seu baile letal em terras estadunidenses, vão emergindo modulações discursivas normalizadoras. Esses discursos se movem, por acomodação ou pressão, do registro da emergência sanitária para o da adaptação, da conformação.
Parece distante o tempo quando a fórmula discursiva era a seguinte: somente aqueles que exercem atividades essenciais devem sair de casa. Posição que nunca foi encampada, como é sabido, pelo chefe do Poder Executivo brasileiro. Este preferiu, pela simples imitação de seu par estadunidense ou pelo mais autêntico alinhamento a uma postura genocida e eugenista, assumir o negacionismo. O Capitão Corona, como foi nomeado pela imprensa estrangeira, despontou como o pior presidente no combate ao covid-19, conseguindo sobressair num contexto de morte e desolação mundial1/2. A experiência do cansaço é a própria definição de quem combate essa postura política, apoiada pelos inarredáveis trinta por cento de apoio popular3. A negação do real, a falta de empatia, a rejeição da solidariedade, o desejo de morte, defendidos de forma tão contundente por quem governa o país, exaurem quem se contrapõe à loucura.
Bolsonaro e seu governo militar mobilizaram uma política pautada no exercício de um poder necropolítico4. Sua postura política deu concretude ao desejo de morte5 pelo poder de deixar morrer. Toda vez em que disse “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”6, “Não sou coveiro, tá?”7, “Vamos tocar a vida”8, a cada vez em que se manifestou ou foi questionado sobre o avanço da pandemia no Brasil, Bolsonaro não exerceu apenas demonstrações ostensivas de sua desumanidade, mas deu respaldo ao desejo de morte como pulsão política que possui ampla difusão no Brasil. Afinal, quase 60 milhões de pessoas – independente de razões pragmáticas que possam estar vinculadas, por exemplo, à rejeição ao PT – o elegeram apesar (ou por causa) de sua postura abertamente necrófila. Tudo em torno de sua postura política gira em torno do poder de matar, seja no fetiche em relação aos instrumentos letais, seja na defesa de que a morte, conforme sua ideologia miliciana9, é o único instrumento de estabelecimento da ordem.
Bolsonaro e os verde oliva tornam a ignorância e os desejos de morte sinônimos do “macho”, do homem que afronta seja o que for. Reduz uma experiencia traumática coletiva num sujeito masculino prepotente, de racionalidade militar hierárquica. Mas é a fragilidade masculina que a adota, a reforça. A constante presença militar e sua retórica curta e ríspida, vertical e seca, da seriedade monótona, potencializa os símbolos de que tipo de macho man combate o micro vírus, sem máscara nem nada disso daí. Em um retrocesso de sentidos, tudo é reduzido a uma linguagem de um conservadorismo prepotente, excludente, braçal, que prescinde da razão e da humanidade. A realidade construída é binaria, brutalmente binaria e desigual. Nós ou eles.
A morte como plataforma pode parecer uma insanidade para aqueles que se colocam do lado dos vivos. Mas é muito mais que um delírio. É um operador de produção de realidade. Aquilo que consideramos inaceitável, condenável e inconcebível, torna-se a própria substância do real, que é experimentado como completo absurdo para os do lado de cá. E esta realidade, por mais que a desejemos alheia, nos recobre. Nós que sentimos e respeitamos a vida, vivemos, então, uma espécie de exílio. Uma experiência radical da solidão. Muitos, portanto, por esgotamento, por necessidade, por solidão, em silêncio, vão cedendo. Aos poucos, a fórmula da flexibilização foi ganhando corpo. As máscaras foram alçadas da condição de acessório de proteção, utilizado em caso de necessidade, para um objeto de fetiche, uma chave para escancarar a porta de casa. Uma espécie de tapete mágico pandêmico.
Aqueles que não puderam se proteger da doença em casa para botar comida na mesa foram esbarrando com flâneurs hedonistas. Estes vagantes não são como o homem na multidão do conto de Poe10 que, saindo da convalescença e, de tanto olhar pela janela, caminha estranhando a multidão e vendo na massa sua própria solidão. Eles, ao contrário, desfilam o orgulho da distinção, o triunfo de sua própria visão de mundo inalterada, a glória da pura individualidade sobre o drama coletivo. Como o professor Ricardo Benzaquén de Araújo chamava a atenção nas leituras que fazia desse conto em seus cursos, todos que saem de um ciclo de adoecimento passam por uma mudança na sua percepção das coisas, como um rádio que não sintoniza perfeitamente a frequência da estação. O balé dos que romperam o isolamento social por motivo fútil é, ao contrário, a pura afirmação da superioridade sobre o outro, aquele que não terá boa assistência médica, que esperará em agonia pelo leito de terapia intensiva, que será atendido por médicos e enfermeiros exaustos e precarizados. Seja por gesto deliberado e intencional, ou manifestação inconsciente, é disso que se trata: a certeza da superioridade e a negação de vulnerabilidade, este coeficiente de igualamento.
A distinção como operador da produção de hierarquias sociais, tal como estudou Bourdieu11, é mobilizada como manifestação do desejo de eliminação do outro. O exercício da “liberdade” contra a solidariedade é expressão da vontade de poder contribuir para a ampliação do risco de morte do outro. Marcuse12 já havia analisado que a noção de “liberdade” pode ser utilizada como um dos motores fundamentais das formas de dominação, a combinação do controle pelo consumo com a servidão voluntária. A consolidação do capitalismo, segundo ele, define um quadro no qual os que estão em condições mais favoráveis não podem pensar na superação da opressão porque já se julgam livres e os mais oprimidos estão por demais desprovidos de meios para lutar. Os horizontes do ultraliberalismo, se considerarmos a discussão de Marcuse, apontam para as formas mais extremas de opressão. Trata-se de um tipo de dominação em que o poder de matar se conjuga com um desejo de morte, amplamente difuso socialmente, e de um mundo dos indivíduos no mercado, no qual a distinção e a competição operam movidas pelo desejo de eliminação do outro.
Bolsonaro utilizou a pandemia como plataforma para evocar, pelo vínculo narcísico com sua base política, o desejo de morte como operador de eliminação da alteridade. Ele franqueou a cada um o poder de manifestar seu desejo de eliminação do outro – como o faz, quando demonstra que deseja universalizar o poder de matar, ao afirmar que quer armar a população13. Muitos são, por isso, flagrados, entre um gole e outro, entre um trote e outro, humilhando fiscais da saúde pública ou guardas municipais que os chamam a atenção para observação das medidas de prevenção do contágio. Os insensíveis bebedores de cerveja do Leblon e da mureta da Urca são a própria expressão do desmantelamento da sociedade denunciado por Wendy Brown14 como o cerne da ideologia e das políticas neoliberais. Um festejo necrófilo-hayekiano.
Sem perceber, sob um tempo que perdeu suas formas, a sociedade vai moldando um sentimento antidemocrático, unificando a prepotência das hierarquias e distinções. No processo, vão se evaporando as estruturas dos valores coletivos, da diversidade, do outro como humano. A força do cansaço vai adormecendo as resistências, a defesa da vida. Tudo é triturado pelo presente, pela necessidade, pela indiferença. O remo cai no mar da prepotência e não se vislumbra outra saída além de continuar nadando, sem ter um horizonte certeiro. A democracia está sendo asfixiada pela potência de um neoliberalismo voraz, fomentando a canibalização das relações, enquanto enterramos em silêncio e envergonhados os restos de civilidade e sensatez.
Sem que houvessem parâmetros epidemiológicos suficientes para a orientação das políticas, no caso brasileiro, foram adotadas medidas de reabertura dos centros comerciais, academias de ginástica, estúdios de pilates, restaurantes, entre outras atividades. Existe neste processo um silenciamento dos números oficiais, uma maquiagem sutil, que sem nos darmos conta vão sumindo da mesa, aumentado o desentendimento. O desejo por um regime de indivíduos, de puro mercado, sem sociedade, tem prevalecido. É o mercado e a pandemia, de mãos dadas, na ventania, no meio da rua. Uma sinergia excludente e individualizadora.
Se queremos pensar em quaisquer horizontes para além da pandemia, a solidariedade social que, como defende Franco “Bifo” Berardi15, é imprescindível, vai sendo assassinada de cima para baixo, física e simbolicamente, Nota-se, assim, um) sentimento ampliado de cada um por si, aprofundando a hipocrisia social. Para uns, é facultativo, para outros, dever e obrigação, sem escolha. A pandemia ofereceu, por um lado, a oportunidade de deixar morrer os matáveis e, por outro, precarizou e controlou os que sobraram como mão de obra dócil e disponível. Muitos dos que acreditam estar acima desses padrões, os que repetem: “Cidadão, não! Engenheiro civil. Formado. Melhor do que você!”16, serão empurrados para um lado ou para o outro desse jogo pandêmico-neoliberal.
Os ecos dos ditos e atitudes de cima para baixo reverberam em toda parte, privilegiando a fertilidade na sociedade, ou seja, para que ela cresça e se reproduza. Na enorme diversidade que é o Brasil, setores que absorvem a gramática do governo federal adquirem uma visibilidade particular, enchendo o peito de brutalidade, impunidade e ignorância. A verdade não importa, a realidade é construída e os símbolos que nos afetam e nos emocionam têm um perfil individualista, e, necessariamente, estruturam-se em contraposição ao outro. E essa identidade é delimitada, orientada e consolidada nas diferentes plataformas e redes sociais, baseadas em fake news e pós-verdades, com o objetivo de distorcer a realidade. Hoje em dia, somos extensamente tolerantes com a mentira, multiplicando o sentimento de desconfiança generalizado. E o estado de alerta diante das mentiras, como forma de diálogo cotidiano, extenua-nos, corrói-nos, e, aos poucos, tira-nos a resistência. Como sublinha Kakutani: a indignação dá lugar ao cansaço da indignação, que dá lugar a um tipo de cinismo e de fadiga, que empodera quem dissemina as mentiras17. Não pensamos, nem sentimos. Como indicava Hannah Arendt, “o súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe diferença entre o fato e a ficção”18. No filme Matrix, Neo sai da matrix e consegue enxergar a realidade como ela é. Cyfer, o personagem que trai a resistência, decide voltar para o mundo de ilusão e, negociando com o agente Smith, declara: “a ignorância é uma benção”19.
O jogo da escravização pela precarização absoluta do trabalho é desempenhado pela perspectiva da pandemia eterna. Essa perspectiva engendra um discurso que possui, entre outras, as seguintes fórmulas: “não há horizontes para além da pandemia”, “temos que nos adaptar a essa nova realidade”, “não voltaremos a mesma realidade anterior” e a já famosa fórmula do “novo normal”. A pandemia eterna seria um salto qualitativo na consolidação do neoliberalismo como ferramenta de normalização do desejo de morte, da aliança entre os que se julgam superiores para a eliminação daqueles que consideram matáveis20. É por isso que os regimes, que aderiram radicalmente ao neoliberalismo, como a ditadura de Pinochet, no Chile, têm em suas cartilhas as políticas de combate à miséria extrema. Precisam deixar o menos explícito possível que suas plataformas político-econômicas se baseiam na defesa de que é aceitável que alguns morram (de fome ou asfixia), entregues à própria sorte, enquanto outros acumulam condições que seriam suficientes para que muitas gerações sobrevivam. A prosperidade, nessa perspectiva, não guarda nenhuma proximidade com a noção de uma boa vida, mas se traduz na ocultação do desejo de possuir para impedir que o outro sobreviva. Marcuse21 nos advertiu, por isso, sobre os mecanismos que fazem com que o consumo convirja com um ascetismo como ferramenta da dominação e da exploração.
Pandemia eterna é, assim, a realização do paraíso hayekiano, de dissolução completa da sociedade. Trata-se da elevação ao grau máximo de um regime no qual o Estado é destruído, restando ao indivíduo apenas os valores tradicionais e o mercado como referência22. As ferramentas digitais de comunicação são o instrumento fundamental da pandemia eterna. Há, portanto, condições sem precedentes para a consolidação da “uberização” do trabalho, como define Ricardo Antunes23.
A pandemia eterna interdita as possibilidades de se defender as agendas de negação da precarização das relações sociais e de trabalho. No lugar de se estabelecerem medidas de controle da pandemia, para que se encurtem os períodos de necessidade de isolamento social, o que estamos vendo é um estímulo para que o contexto pandêmico perdure o máximo possível. Não se trata de economia versus vida, mas um projeto de dissolução da sociedade. Uma forma de silenciar, de gerar dependência, de criar muros, de controle. No lugar de um isolamento social controlado, planejado e temporário, onde a economia se reativa respeitando a vida e sociedade, vemos o jogo neoliberal escancarado e impune. No caso brasileiro, por exemplo, empurra-se para o alto a curva de contágio para que a dilatação do tempo da emergência sanitária possibilite que o máximo de atividades laborais sejam empurradas para padrões precários. O dinheiro público é despejado massivamente nas instituições financeiras, enquanto os pequenos empresários e os trabalhadores são empurrados para o desemprego. Os que não morrerem serão assimilados por formas ultraprecárias de trabalho. Os que mantiverem seus empregos serão pressionados a desempenhar suas atividades em plataformas digitais, trabalhando em casa, ou em home office, já que os estrangeirismos são uma marca das retóricas que douram a pílula da destruição dos direitos trabalhistas nos países periféricos.
Aos poucos, neste cenário da pandemia eterna, estruturas vão se materializando para sua perpetuação. Iniciativas nocivas e ilegais eliminam rastros de culturais ancestrais. O desmatamento também significa um ataque a nossa cultura, com o garimpo predando espaços sociais. Os direitos humanos abastardados se tornam peça de museu, um documento daquilo que já não somos e, talvez, nunca tenhamos sido. Nesta construção da continuidade, os militares garantem a ordem de um neoliberalismo autoritário e desigual, com horizontes voltados para o conflito social permanente. Talvez um exemplo contundente da insanidade seja o projeto de reforma tributária encaminhado pelo governo brasileiro ao Congresso Nacional, multiplicando a precarização e a quebra social, em plena pandemia24. Lembremos, somente pouco mais da metade do orçamento destinado para combater a pandemia foi utilizado e de forma negligente. Mas, está claro, os sinais não são para garantir a vida, mas para um lucro raivoso e concentrado.
Os profetas da pandemia eterna não dormem. O presidente do Santander no Brasil, Sergio Rial, sugeriu que, ao economizarem trabalhando de casa, os funcionários do banco poderiam abrir mão de benefícios e “dividir” estes ganhos com a empresa25. A sanha por acumulação, como mostrou Marcuse26, possui relações estreitas com a pulsão de morte, expressa alegoricamente no jogo do mercado. A pandemia eterna seria um terreno no qual o jogo da eliminação, garantidas as vantagens em termos de acesso a cuidados de saúde pelas classes dominantes, desonera de justificativas políticas a visão neoliberal de mundo e produz oportunidades de normalização e naturalização das desigualdades, das opressões e das mortes por ela promovidas. Bolsonaro insiste na retórica de que ele não tem controle sobre a pandemia porque ninguém pode controlar a morte. Tal retórica não passa do estratagema para ocultar seu exercício intenso do poder de decisão sobre quem vive e quem morre. Tudo é escancarado.
A política de eliminação do reino do neoliberalismo tem compromisso não somente com a morte consumada, mas também com a produção sistemática de quase morte. O trabalho de casa, além de ampliar os custos para o trabalhador, já que fica a seu cargo a infraestrutura para o trabalho, alimentação etc, abre, ainda, uma avenida para que as jornadas laborais se ampliem, sem contar a exaustão e o aniquilamento generalizado da saúde mental. São frequentes, nos noticiários, matérias sobre como a “criatividade” tem produzido “soluções” para o trabalho na pandemia. Eis aí o romantismo das migalhas de uma sociedade em processo de afogamento. Todas essas “inovações” passam pela fragilização das relações trabalhistas e pela substituição da sociedade por relações ultraindividuais e mediadas por plataformas tecnológicas.
O Brasil abraça uma transição tecnológica massiva ao mesmo tempo em que reativa valores do medievo. A covid-19 não define apenas uma pandemia, mas o cenário ideal e oportuno para a transformação a um mercado ultraliberal tecnológico massivo. Por um lado, o negacionismo libera as ruas para que tudo tenha uma aparência de normalidade e continuidade, sendo sorteados diariamente quais trabalhadores morrerão; por outro, aqueles que conseguiram ficar em casa, os quarentenados, adaptam-se da forma que podem a um mundo digital, sem estruturas nem apoios. As elites, livres de amarras e limites, desfilam sua hierarquia. A transição digital massiva forçada em uma pandemia aumenta as desigualdades, carcome as bases do coletivo, e não dá respiro para refletirmos e pensarmos uma reação. Nem o tempo existe mais. Agora cada um tem seu próprio tempo, seu próprio horário. Estamos em dessintonia como coletividade. Como indica Morozov, neste processo, o capitalismo digital tem como subproduto as massivas fake news e outras formas de manipulação social, que aprofundam os dilemas da transição27. Sem tempo para refletir sobre os fundamentos do capitalismo digital e menos ainda combatê-los, no fundo, estamos sendo excluídos da construção das bases das democracias corroídas pela tecnologia, com um horizonte mais hierarquizado e concentrado.
O uso das plataformas digitais possibilita a demissão de grande parcela dos trabalhadores. Demissões impessoais, sem possibilidades de diálogo. A massa de entregadores de aplicativos é a expressão mais acabada dos horizontes neoliberais para o trabalho sob a pandemia eterna. Eles são os novos proletários do nosso tempo virtual. E com eles na frente, estão nos mostrando qual é o futuro e destino de todos os trabalhadores. No campo da educação, as pressões são enormes pelo desaparecimento do alunado e da categoria docente28. As instituições privadas de ensino promovem demissão em massa29 e oferecem cursos remotos a baixíssimo custo com profissionais que trabalham em regime de educação à distância em circunstâncias extremamente precárias. O professor é substituído pelo tutor, mediador, facilitador. O estudante dá lugar ao cliente. A educação é reduzida ao consumo. É fácil encontrar anúncios de cursos de graduação à distância a cem ou até mesmo cinquenta reais mensais. Na educação pré-escolar, haverá uma sobrecarga da rede pública, já insuficiente, tendo em vista que as creches privadas de bairro tendem a quebrar com a crise, abandonadas à própria sorte, como os pequenos e microempresários. Estamos falando de um momento icônico do desenvolvimento humano e de um espaço no qual sua ausência multiplica as diferenças de gênero e anula as possibilidades da luta pela igualdade de direitos e oportunidades. Na educação básica, pais inquietos sonham com a volta às aulas presenciais, depois de meses experimentando o gosto amargo do ensino remoto oferecido a seus filhos. Em geral, apresenta-se com resultados pífios, sem estrutura e, como sempre, nas costas das educadoras e educadores, que deixam a vida por seu trabalho, pouco reconhecido, mesmo na pandemia.
Nas universidades públicas, aos poucos, a difusão de uma pressão pelo ensino remoto começa a suplantar o compromisso com a excelência do ensino. Como se a universidade se limitasse à transição de conhecimento estático com alunos assistindo aulas e outros vídeos simultaneamente. O ensino remoto tende a jogar por terra os esforços pela expansão, interiorização e ampliação do acesso às universidades públicas brasileiras, tendo em vista que pode servir de balão de ensaio para que grande parte dessa política seja assimilada pelas plataformas de ensino à distância. Os campi do interior, cujo cerne político e pedagógico consiste na territorialização, poderão sofrer a pressão da substituição pelo alcance digital. Um laboratório a céu aberto. E sua consequência será a perda dos sentidos da inclusão da universidade pública. Lembremos que menos de 25% do ensino superior é público, atualmente, no Brasil. Tudo indica que, ao término da experiência pandêmica, essa porcentagem ficará ainda mais reduzida, mudando o perfil dos estudantes, em ambientes mais elitizados.
Os que procuram resistir ao avanço do ensino remoto são acusados de tecnofóbicos, antiquados, alucinados, míopes e retrógrados. O caráter desigual e elitista das propostas de ensino remoto é denunciado pelo fato de que as portarias que o regem e o autorizam não alcançam plenamente os cursos de medicina30. A estes, é reservado o privilégio da espera. Os mais ricos aguardarão em segurança e, quando tudo passar, voltarão para os centros de excelência e acessarão uma formação superior presencial de qualidade. Aos mais pobres, restam os horizontes da pandemia eterna, cujo operador central é a desigualdade.
Neste processo, o neoliberalismo sempre detestou a solidariedade, tem nojo de uma sociedade na rua, ciente dos seus direitos, que atrapalha as necessidades individuais supérfluas. A pandemia castrou as ruas como um espaço constante de luta. O medo manipula a sociedade, arrefecendo os ânimos de manifestação, ímpetos fundamentais de luta. E o líder genocida adestra os medos, sinalizando a todos soluções perversas regadas a cloroquina.
A pandemia eterna é a apoteose da sujeição completa da sociedade ao mercado. A uns, cabe o mundo como espectro, uma vida fantasmal, um abismo de permanente relação com a morte, o abandono a um jogo no qual os mais pobres produzem com seus corpos a imunidade de rebanho que protege os mais ricos. A outros, é reservado o privilégio da superioridade, a demonstração ostensiva de que não compartilham a mesma vulnerabilidade e precariedade dos demais, o chope com colarinho à moda hayekiana. A muitos, resta a ilusão de estar na mesma bacia dos privilegiados. Até que a pandemia eterna os encontre na esquina, pela morte ou pela precarização da vida.
André Rodrigues e Andrés del Río são politologos, eles residem no Rio do Janeiro.
Doutores em ciência política pelo IESP/UERJ professores da UFF.
*Este artigo é uma versão revista e ampliada do que publicamos em
https://aterraeredonda.com.br/pandemia-eterna/
Notas:
1https://www.ft.com/content/c08923ca-db0a-4642-8421-5c9410811a43
3 30% é a base de apoio que o presidente Bolsonaro teve de forma constante na seu ano e meio na presidência, dos quais 12% são de fanáticos.
4 MBEMBE, A. (2019). Necropolitica: Biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo, n-1 Edições.
5 LÍSIAS, Ricardo. (2020). Diário da catástrofe brasileira: Ano I – O inimaginável foi eleito. Rio de Janeiro; São Paulo: Editora Record.
9 Trabalhamos o conceito de “ideologia miliciana” em https://diplomatique.org.br/estado-miliciano-a-consolidacao-da-ideologia/. Esta categoria também se baseia no debate sobre homicídios que consta em RODRIGUES, André. (2017), “Homicídios na Baixada Fluminense: Estado, mercado, criminalidade e poder”. GeoUERJ. Rio de Janeiro: n. 31, pp. 104-127.
10 POE, Edgar Allan. “O homem na multidão”. (edição digital disponível em https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2020147/mod_resource/content/1/homem_multidao.pdf)
11 BOURDIEU, Pierre. (2007). A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk.
12 MARCUSE, Hebert. (1968). Eros e a civilização: uma análise filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar.
14 BROWN, Wendy. (2019). Nas ruínas do neoliberalismo. São Paulo: Editora Filosófica Politeia.
15 BERARDI, Franco “Bifo”. (2020). “Crónica de la psicodeflación” in AMADEO, Pablo (org.), Sopa de Wuhan. ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio). (edição digital).
16 https://istoe.com.br/cidadao-nao-engenheiro-civil-casal-que-atacou-fiscais-no-rio-e-criticado-nas-redes/
17 KAKATANI, Michiko. (2018), A Morte da Verdade. Notas Sobre a Mentira na Era Trump. Rio de Janeiro: Ed. Intrínseca.
18 Arendt, H. (2018). Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras.
19 https://www.youtube.com/watch?v=E70TwLgfstI
20 AGAMBEN, G.(2015). Meios sem fim: notas sobre a política. Belo Horizonte, Autêntica Editora.
21 Op. cit.
22 Um horizonte que corresponde à descrição de Wendy Brown em “Nas reúnias do neoliberalismo”, publicado em português, em 2019.
23 http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/591102-uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador
26 Op. cit.
27 Morovoz, Evgeny. (2018), Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu editora.
28 http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/599292-requiem-para-os-estudantes-artigo-de-giorgio-agamben
30 https://abmes.org.br/arquivos/legislacoes/Portaria-mec-345-2020-03-19.pdf