Cristina Duba – O fascismo não dura para sempre. Notas sobre o fascismo ao modo brasileiro

Aparece de repente, aparece de repente o que parece que estava aí desde sempre. Entreouvido nos murmúrios, à meia voz, à boca pequena, em palavras envergonhadas. Talvez advenha de um resto não assimilado, um insulto indigesto, uma afronta, um ultraje insuportável, uma cicatriz ancestral ou uma mancha muito próxima, um gozo íntimo e obscuro que retorna na pele do Outro. Às vezes exatamente na pele. O ovo da serpente do fascismo está sempre aí, onde sempre esteve, na memória que não se apaga, na memória não tratada, e ressurge em tempos propícios, súbita e rudemente. E muitos então se perguntam, do fundo do espanto, como não se aperceberam antes. Os restos de memória deixam seus rastros, quando não são, no mais amplo sentido, comemorados, cobram sua conta. Mas esse fascismo, cru e recrudescido, que ganhou as ruas, tantas mentes e corações brasileiros, que espocou pelo mundo, que parece que volta sempre a um mesmo lugar, não dura para sempre.

É verdade que acontecimentos recentes que abalaram a fulgurante ascensão de aventuras autoritárias espalhadas pelo mundo nos trouxeram um suspiro de alívio1. Novamente não estaremos no melhor dos mundos, mas a noite que não admitia aurora parece dissipar algumas de suas sombras. As eleições americanas, a comemoração popular, sobretudo da população negra americana, e talvez de outras minorias, acenam com ventos melhores para um planeta que vive os abafados momentos de uma pandemia, costurada à ascensão de líderes populistas de extrema-direita em vários cantos do mundo.

O fascismo não dura para sempre, foi assim também no século XX. Inventado em suas formas mais definitivas no século passado, suas origens se entranham na história de vários povos, nas massas e nos sujeitos. Não nos iludamos, porém: o estranho paradoxo é que ele seja, como nos aponta Umberto Eco, também eterno, germinal, “ur”2. O que quer dizer que não desaparece, é coetâneo do humano, tal como o crime3, tecido nas bordas da lei, ou seria no coração da própria lei que se engendra?  É eterno, mas não dura para sempre. Vem em ondas, como uma estranha epidemia, cujo vírus é intrínseco ao humano, é este ponto de estranho, de incivilizável na civilização, de violência e gozo mortífero que habita o mais humano.  Obriga a um trabalho incessante. Se os totalitarismos e mesmo as mais modestas tiranias respondem atualmente às imperfeições da democracia, a democracia não será onde o vazio da política, a impossibilidade de anular as diferenças humanas, melhor se expõe?4  Política é consequência de que há, por princípio, desacordo. Se a política é a continuação da guerra, como dizia Clausewitz, é quase natural que a retórica de uma retorne na outra. A guerra como um modo de discurso5  e, portanto, de gozo, é o pilar da civilização limítrofe fascista, sempre a um passo da barbárie, alimentada pelo ódio. É uma barbárie? Que curiosamente surgiu da inspiração romana? Talvez seja mais do que nunca a demonstração de que nas hostes romanas, desses representantes da civilização, se abrigava o sonho da civilização pura que só encontra a barbárie. O que nos aproxima da questão, em cada um, do racismo de cada um.

Vivemos esse retorno no Brasil. Acompanha o mundo, diante agora da nova roupa do fascismo, que estoura em vários países, toma o poder pelas urnas na Polônia e na Hungria. Sabemos que não são acontecimentos iguais, que o neoliberalismo deu novas cores não nacionalistas a esse ressurgimento autoritário que, no entanto, guarda semelhanças, partilha fundamentos com o fascismo de outrora. Agora, porém, o neofascismo não se caracteriza pelo elogio do Estado, da pátria, do “sangue e da terra”, como na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler, mas herda a sua violência de Ubu Rei6, vivemos tempos de Ubu Rei. O neofascismo nacional, muitas vezes até terraplanista, tem também seus negacionismos: se os seus antecessores negavam o holocausto, os atuais negam a pandemia de covid-19, sua gravidade.  Os temores foucaultianos e agambenianos de controle social agora se restringem à Europa ocidental com seus líderes ainda “iluministas”, não se aplicam ao neofascismo nacional. Este Incentiva, no entanto, tal como seus antecessores europeus e a versão nacional do integralismo, a coragem, o combate, usam a linguagem da exaltação à guerra, do elogio das armas, do culto à morte7. Inflama-se com o destempero, combate um povo de “maricas”8, faz mesmo da máscara uma retórica de privação de liberdade. O negacionismo é tributário do não querer saber, num tempo do predomínio das narrativas. Populismo que dispensa a representação, e captura o sujeito pelo ressentimento9, no culto aos winners, para uma multidão de losers decepcionados com seu fracasso, desiludidos da promessa de ascensão social e acesso ao consumo, que supõem que seu gozo lhes foi roubado.

O fascismo, que aqui não se distingue, para o que nos interessa discutir, do neofascismo de que tratamos, se alimenta do núcleo violento da lei que se dispõe a representar. Alimenta-se do ressentimento, esse gozo arraigado à posição de vítima, esse resquício da paixão de vingança, que expõe o núcleo violento da lei.  O horror à política é a expressão do desejo de ser tiranizado, submetido, uma espécie de recrudescimento de uma versão de um pai tirânico que proteja do desamparo, um sonho de uma pátria pura e de uma língua unívoca que nunca existiram, que provavelmente são impossíveis. Assim, alianças contemporâneas com a religião vêm atestar o declínio do pai, das funções que o encarnam, o gozo ilimitado encontra abrigo na religião, especialmente dos ramos neopentecostais em suas tendências negacionistas, com seu furor anti-intelectual, anti-científico, disseminadores das pós-verdades na era das narrativas que não se submetem ao saber. Não é, assim, exatamente como um tradicionalismo conservador que se caracterizam, dado seu desapreço à cultura. Com um radicalismo de ocasião, irracionalista, incentivam a ação sem pensamento. “Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”, esta declaração atribuída a J. Goebbels, ministro da propaganda do Terceiro Reich, inspira versões nacionais.  No fascismo europeu, o elogio da guerra, da força, do poder, resultou em arte medíocre, num Futurismo de primeira hora, no geral, no fascínio tecnológico, numa arte ruralista kitsch, bucólica e edificante, aqui, ainda veremos…

O real aparece na pandemia, o incentivo à coragem se mescla com o culto da morte, da violência, do gozo desenfreado. É o que o moralismo, a flama do supereu moralista afirma. O culto do sacrifício em suas formas contemporâneas, a paixão do ressentimento da multidão que arrebata os humilhados e ofendidos10. São levados então a combater no Outro o estrangeiro que toca a fronteira, o gozo estrangeiro, desconhecido. Parodiando Miller, nada é mais humano que o racismo, surgiu antes mesmo da ideia de raça, antes mesmo que essa noção fosse inventada se constituíram os racismos. Se antes a ciência servia aos propósitos eugenistas, ao racismo nazista, agora ela é simplesmente desqualificada. O horror à ciência, à cultura é o retrato fiel do esvaziamento ideológico, filosófico do próprio fascismo. O fascismo enquanto esse anseio pelo Estado de fortes (Mussolini) ou da Alemanha pura (Hitler), esse conclame à nação, ao coletivo, se concentra e se alimenta do elogio da violência, do heroísmo na sua face mortífera, enquanto equivalente do sacrifício por um todo ideal. Viva a morte, bradavam asseclas de Franco. É próprio do real não se fazer crível: ou é um sonho ou não se pode dizê-lo. Não nos esqueçamos, no entanto, que se pode bordejá-lo. Em tempos de pandemia, de advento do fascismo, surge como um acontecimento súbito, mas também é gerado como o ovo da serpente. E surge aquele que encarna e interpreta a vontade do povo, dá-lhe corpo, bigode ou topete.

No Brasil. Como já foi dito, não se reduz às manobras ou heranças das elites incultas, a mordida final é nos desclassificados, excluídos das letras e abandonados a um ressentimento incalculável, ancestral, que dura mesmo uma vida. Não é o sonho de retorno ao éden racial, a um passado que nunca houve, ele se concentra nos losers de um mundo que glorifica supostos winners. A “birra” de Trump, sua “relutância decidida” em aceitar a recente vitória de Biden, com todos os perigos que pode prenunciar, é o retrato, o instantâneo do cômico dos grandes ditadores, de Nero e Calígula a Hitler e Mussolini, e mesmo as patuscadas e fanfarronices de nosso representante nacional, bradadas em meio ao horror do morticínio da peste. É o teatro da detumescência do falo, o impossível do sonho do “reich de mil anos” que coube a cada um.  A redução às causas econômicas não dão conta de como o horror do racismo se transmite e não há fascismo sem racismo. O racismo evoca o mal em cada um e a suposição de que se pode erradicá-lo e não combatê-lo transpõe o modo de funcionamento fascista para os cotidianos mais banais11. Podemos reconhecer no justiceiro sua figura mais cotidiana, disposto a restaurar a ordem a qualquer preço, que justamente libera a violência, selvagem, que habita a própria lei, tantas vezes evocada na prática policial.

Conhecemos de longa data essas diatribes contra os ataques à liberdade que derivam da retórica démodé anticomunista, uma referência que no momento soa vaga, aludindo a perigos difíceis de serem localizados, mas que certamente ressoam nas restos de lembranças, fragmentos de ideologias passadas que agitaram outras épocas. Não o risco do controle social, mas do “comunismo”, referência débil a redes de solidariedade coletivas. Prática própria do cálculo coletivo, que não é controle social, mas implica em responsabilidade, corolária da castração, já apontada por Freud nas três fontes de sofrimento narcísico do ser humano, uma delas justamente a natureza na sua face mais real, “tão” real que se descola da natureza. Não se trata assim de controle social, da biopolítica, repetimos, mas de seu avesso, a liberdade para a destruição.

Para o fascismo, é preciso um inimigo, tributário permanente do inimigo interno, essa estranheza imponderável que habita cada um. Se o temor do controle social é um luxo a que não podemos nos dar, a aporia neofascista oferece o desprezo pela cultura, pelo saber científico, ou mesmo estatístico da epidemiologia, na era das narrativas alimentadas pelas pós-verdades, opiniões ecoadas na internet que produzem realidades paralelas, mantidas pela força do grito repetido das narrativas. Se o fascismo no século XX se servia das rádios para arregimentar as massas, agora a internet amplifica anonimamente as vozes de comando. Desorganização que irrealiza a vida e o cotidiano, perdidos no choque com a epidemia.

Essa banalização da morte é denunciada por Victor Klemperer, em seu estudo sobre a Língua do Terceiro Reich, que ele nos antecipa em seus Diários12: linguagem de eufemismos que hoje toma a forma, ao menos nas nossas paragens tropicais, de uma linguagem de impropérios, palavrões, insultos, ultrajes. Eufemismos, tão característicos da linguagem de caserna do nazismo13, são aqui substituídos pelo empobrecimento de uma linguagem que se alimenta de insultos, de violências linguísticas, de clichês, que reduz suas funções conotativas em direção a uma denotação unívoca, simplória.

O importante é que essa linguagem se infiltra no cotidiano, desavergonha o sujeito que se autoriza no dia a dia a expressar suas mais desprezíveis inclinações até então, aquelas que há não pouco tempo eram ditas à meia-boca, disfarçadas na suposta irreverência de piadas. Aliás, a própria irreverência se degrada, porque o humor supõe ironia, supõe o uso da dimensão simbólica da palavra, da poesia das ressonâncias, do eco das vocalizações, da música nem sempre alegre do desejo.

Trotski atribui essa adesão ao desespero da pequena burguesia e do proletariado14 em tempos de vacas magras, de ausência de representação popular. Não seria, no momento atual, mais apropriado atribuir ao ressentimento das classes médias, também do lumpesinato? Não há dúvida de que o lumpen está no poder, um exército de rejeitados do “sistema”, abandonados da sorte em geral.

Pobreza de filosofia, nos assinala Umberto Eco, reduzida a mero anti-iluminismo e, embora haja uma estética fascista, como nos mostra a obra de Leni  Riefenstahl, um culto retórico da tradição, como já foi apontado, resta, no final das contas,  tão somente um imenso apreço a clichês.

Junto a isso, o horror ao estrangeiro, o sonho da língua pura, da pátria pura é a tentativa sistemática de se desobrigar do forasteiro em si próprio, do lado obscuro em cada um, por isso sua arma principal é o racismo, a segregação, uma coorte de discriminações que buscam afastar de si o mal, colocado no estrangeiro que cotidianamente ronda as fronteiras familiares. Um inimigo em toda parte, não há fascismo sem inimigo, sem essa lógica concentrada no antagonismo.

A referência ao divino, a aliança com a religião e seus sentidos teleológicos é inevitável. Importante acrescentar que esses movimentos nasceram e agora recrudescem quando o pai entra em declínio, não se presta mais à organização pulsional e a religião se prontifica a ocupar esse lugar através de seu apreço ao sentido: não querer saber impele à religião, ao sentido religioso que, ao tentar resgatar uma dignidade combalida, aviltada, corre o risco de concentrar essa tentativa num fundamentalismo imaginário que vaporiza suas aspirações simbólicas.

O fascismo não dura para sempre, mas sempre pode germinar.

 

Cristina Duba é psicanalista, ela reside no Rio de Janeiro.

 

Notas:

[1] Refiro-me à eleição de  Biden na recente disputa (2020)  entre  J. Biden e D. Trump pela presidência dos Estados Unidos.

2 Eco, U. Fascismo eterno, Ed. Record, SP, 2019.

3  Miller, J A, “Nada é mais humano que o crime”, em Revista eletrônica Almanaque, n.4, MG.

4 Arendt, H. O que é política?, pg 21, Ed Bertrand Brasil,RJ, 2017.

5 Brousse, M-H, La psychanalyse à l´épreuve de la guerre, Berg Ed., Paris, 2015.

6 Jarry, A. Ubu Rei, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1972.

7 Mussolini,B. “[o fascismo]… descarta o pacifismo como um manto para a renúncia covarde e complacente, em contraste com o autossacrifício. Somente a guerra leva toda a energia humana à sua tensão máxima e apõe o selo da  nobreza naqueles povos que têm a coragem de encará-la”.pg 24 e 25 em Fascismo, Ed. Nova Fronteira, RJ, 2020.

8 Cf discurso do Presidente Jair Bolsonaro no dia 10 de novembro de 2020, de acordo com a divulgação da Rede Globo de televisão.

9 Kehl, M R, em Ressentimento, Clínica psicanalítica, Ed Casa do Psicólogo, SP, 2004

[1]0 Cf filme “somos jovens, somos fortes”, filme alemão de 2014, dirigido por Burhan Qurbani

11 Rezzori, Gregor Von, Memórias de um antissemita, Ed Todavia, 2019.

12 Klemperer, V , Testemunho clandestino de um judeu na Alemanha Nazista, Companhia das Letras, SP, 1999.

13 O filme Shoah de Claude Lanzmann reúne diversos depoimentos do historiador Raul Hilberg, em que ele também nos demonstra como a linguagem técnica dos documentos nazistas era constituída de eufemismos, (entre outras características) em que cadáveres, por exemplo, eram transmutados em “peças”.

14 “do rebotalho humano organiza destacamentos de combate”, nas palavras de Leon Trotski, em Fascismo, Ed. Nova Fronteira, RJ, 2020.

 

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