Será sempre parcial tentar entender o que se passa atualmente no Brasil através de uma única chave de leitura. Nem a análise dos processos históricos anteriores, nem a comparação com a situação de outros países, nem a retração do papel do estado nos serviços essenciais, ou o avanço da intolerância, por si só, desvendam o fenômeno que fez com que metade dos eleitores brasileiros escolham o pior. Por outro lado, um outro elemento, e que interessa diretamente à clínica psicanalítica, teve o papel de disparador de uma ampliação da cegueira identificatória fascista e que mostrou-se irreversível, uma passagem ao ato. Adélio, um eleitor movido pela clareza de propósitos que só os paranoicos conseguem ter, esfaqueia diante das câmeras de todo o Brasil o candidato Bolsonaro. O atentado conferiu um efeito dramático ao processo eleitoral. Não foi apenas o fato do mesmo passar a ser visto como mártir mas, sobretudo, o fato de que após o atentado o mesmo emudeceu, tornou-se um candidato fora dos debates eleitorais. Inicialmente por questões de convalescença –já que fora esfaqueado e estava em tratamento médico– e em seguida, visivelmente fugindo dos debates, o candidato passou incólume pelo primeiro turno das eleições sem participar de nenhuma troca de ideias ao vivo com qualquer dos outros candidatos. Sua ausência nos debates fez dele um menos um, ele deixa de ser um discurso, para ser o traço que apaga o sentido e fermenta as massas pelo traço unário. Que traço? O fora PT. É na confluência desses dados que, separados, não teriam efeitos de massa tão significantes, que formamos os elementos dessa tempestade perfeita que nos assola.
Fuck the old news
Soma-se a esse quadro um ataque virtual que vem se mostrando cada vez mais eficaz na virada para extrema direita dos brasileiros, a recepção de milhões de mensagens por Whatsapp espalhando fakenews, principalmente sobre o opositor de Bolsonaro, o candidato do PT, bem como sua vice-presidente, Manuela. Descobriu-se recentemente que o financiamento dessa operação foi feito diretamente por um conluio de empresários interessados na vitória do candidato que promete uma redução drástica dos direitos trabalhistas acumulados nas últimas décadas.
Contudo, chama atenção o modo como muitos se deixam hipnotizar pelas mentiras, por vezes beirando o absurdo, desse universo virtual fake. Mesmo pessoas com sólida formação intelectual e habilidade para ler diversos idiomas passaram a replicar fatos absolutamente inverossímeis. Uma pessoa me mostrou uma foto da candidata à Vice-Presidente pelo PT, vestindo uma camisa com os dizeres «Jesus é travesti». Fui conferir, é fake. Outra mostrou-me mamadeiras em formato de pênis que seriam distribuídas pelo candidato Haddad, falo de alguém com discernimento para comandar mais de uma centena de pessoas profissionalmente. Em outra mensagem de whatsapp, mostram-me um vídeo do youtube sobre os projetos de Haddad e, no meio, colocam em uma visível montagem de má qualidade, a filmagem de um livro com desenhos de crianças tendo relações sexuais, obviamente falso. De onde vem essa cegueira?
Ora, o capitão Bolsonaro recebe apoio da Ku Klux Klan e é repelido pela extremista da direita francesa Marine Le Pen por ser radical demais, fatos que por si só mostram a gravidade das propostas do candidato. Mesmo assim, a população não leva isso em conta e se dedica a disseminar mentiras e sacrificando a democracia para extirpar o PT, transformado em objeto, Kakon, a ser eliminado. Se milhões estão entorpecidos, é porque um fenômeno grupal se instalou. Impossível não remeter ao livro Ensaio sobre a cegueira, de Saramago. Com efeito, o mundo inteiro está batendo na porta dos brasileiros e dizendo que há algo muito errado com o Brasil, e me chama atenção que essas pessoas, com excelente formação, vão decidir seu voto por fakenews ou pela blindagem dialética que faz com que boa imprensa não faça mais diferença alguma. É isso que chamo de declínio do quarto poder.
O declínio do quarto poder
Ora, o que parecia ser o declínio do falocentrismo na contemporaneidade motivou uma voracidade –sem precedentes no Brasil– de restauração da lei de ferro do pai. Nos últimos anos, mais houve avanços na promoção da desigualdade e abertura para as minorias, mais fomos surpreendidos por sinais de que uma báscula sem precedentes estava por vir. Esses sinais culminara no point de capiton que o atual processo eleitoral no Brasil representa. Nos consultórios dos psicanalistas, mas também nas ruas por onde a psicanálise aplicada caminha, é impossível não perceber em cada escuta uma perplexidade, por parte de uns, e um ódio e vontade de subtração, por parte de outros. Nunca antes, desde sua criação, a Escola Brasileira de Psicanálise, no um a um de seu membros, teve que se haver com tamanha convulsão social.
Há um aspecto que acho fundamental: uma das maiores expressões do falocentrismo no Brasil sempre foi o controle, por poucas famílias brasileiras, da quase totalidade da imprensa nacional, tanto das informações impressas quanto televisivas. Foi essa grande imprensa que instituiu o discurso do mestre, após o golpe militar de 1964, que moldou a audiência de rádio e televisão, criando ideais em visível aliança de interesses públicos e privados. Esse modelo perdurou no Brasil por décadas, vale ler por exemplo a biografia de Assis Chateaubriand, um dos maiores nomes da história do imprensa e televisão do século passado. Esse modelo atravessou os anos de chumbo, prosseguiu durante a abertura e vigorou até a eleição de 2014 e o golpe democrático que se sucedeu.
Assistimos, no momento, ao declínio desse quarto poder, a mass media, que, desde Randolph Hearst nos Estados Unidos do início do século XX, comandava a cena. Surge então, nos últimos anos, no planeta global, uma nova forma de poder, o GAFAM (Grupo formado por Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) que passou uma rasteira formidável e sem precedentes no que era o poder da mídia tradicional. Um quinto poder a meu ver se instala, ele recruta seus devotos por uma via completamente distinta do modelo clássico de identificação, concebido por Freud em Psicologia das massas, tão bem trabalhado no clássico artigo de Adorno, A teoria freudiana e o modelo fascista de propaganda.
Tudo muda quando um novo órgão é criado no corpo, o smartphone1, e que transforma o antigo órgão de gozar, a televisão, em equipamento obsoleto. Há um visível deslocamento do modo de gozar, tanto das notícias, quanto das próprias telas que veiculam as notícias. O gozo não mais espera o jornal das oito, ele está na mão do consumidor a todo instante. Dispensando o prazer preliminar de esperar seu jornal preferido, os vídeos ‘on demand’ que alojam as fakenews se tornam um vício que sai do controle racional. Ou seja, os viciados em notícias e imagens horríveis do partido contrário se tornaram adictos como qualquer outro.
O GAFAM, quando decretou o fim da intimidade, violando todos os dados de seus consumidores, criou algoritmos que não se baseiam no modo como o mestre antigo dizia o que era o bom e o mau modo de gozar. É o modo de gozar de cada um que, decifrado e transformado em dados numéricos orienta o material que cada um vai receber.
Ora, os cálculos algoritmos decifram e devolvem a própria fantasia do consumidor, sempre mais do mesmo. Você quer ver mais de seus opositores agindo como selvagens, mais você terá a gratificação pulsional de receber o que procura.
Compartilhar o horror, uma nova forma de separar-se da angústia
De ambos os lados da atual eleição, é patente que se decifrou o modo como cada um goza do fascínio pelas imagens de violência, atribuídas sempre ao outro (outro lado, outro sexo, outro partido, outra raça). Para Lacan, não é a ausência, e sim a presença do objeto da pulsão, muito próximo, que causa a angustia. Isolados em nossas casas, gozando de nosso novo órgão, somos levados à angustia da presença do objeto smartphone na mão. Para o tratamento dessa angústia é fundamental que uma separação do objeto ocorra. Mas, como já sabemos, não é fácil separar-se desta extensão do corpo que se chama smartphone.
Como deixar de ver as imagens que te causam horror e te fascinam ao mesmo tempo (pois mostram sempre seu inimigo em uma situação que você possa odiá-lo ainda mais)? Seria mais fácil se separar desse gozo e angustia simplesmente desligando o smartphone. Mas não é o que acontece, ninguém se separa de seu aparelho. Desligar o aparelho não funciona, o alívio então vem da possibilidade de passar aquilo que te causou horror e ódio para o outro, como, por exemplo compartilhando seu gozo para seu grupo de amigos de whatsapp.
Compartilhar o horror é uma maneira de aliviar o gozo solitário dessa angústia. Assim se produz o novo laço social que vence o quarto poder do século XX. Mais uma vez é o capitalismo que vence. Lembre-se que é você quem fornece seus dados de graça para o GAFAM. Contudo, não existe almoço grátis. Quando o almoço é grátis, é porque você se tornou a sobremesa.2
Marcelo Veras é psicanalista, reside em Salvador, Bahia.
AME da Escola Brasileira de Psicanálise, Psicanalista, Psiquiatra da Universidade Federal da Bahia, Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ex-Diretor da Escola Brasileira de Psicanálise (2013-15).
Notas bibliográficas:
1 Eu faço algumas considerações a partir da entrevista de Eric Laurent, “Jouir d’internet”, La cause du désir, novembre 2017.
2 Ibíd.