As duas pontuações que se seguem partem de uma pergunta fundamental que foi feita a partir da cidade em que vivo, Salvador, Estado da Bahia, Brasil: Como justificar que na cidade brasileira com maior população negra –90% da população de Salvador é negra ou parda– praticamente não existam psicanalistas negros? Esse texto tenta dar início a uma resposta, mas não se esgota aqui. Muito ainda há para ser debatido…
1 – Racismo, quando a alteridade faz signo
Existe uma diferença fundamental entre o modo como o racismo se estrutura nos Estados Unidos e no Brasil. Enquanto na terra da KKK prevalece o princípio do one drop rule, princípio no qual mesmo Gisele Bundchen, caso tivesse uma gota de sangue negro de algum avô, seria considerada negra, no Brasil o racismo é de marca, ou seja, é a cara, ou o fenótipo, que prevalece. Nesse sentido, no racismo de marca pouco importa se todos os brasileiros são geneticamente misturados, o que prevalece é o olhar. Proponho dividir esse texto em duas partes, na primeira parte de uma experiência pessoal recente, na segunda, uma interrogação sobre o modo como a política lacaniana pode interagir com o discursos das militâncias, sem se confundir com elas.
Recentemente fui designado para compor a banca de verificação de auto-declaração de raça em um concurso público em que havia cotas para negros. As cotas para negros fazem parte das ações afirmativas (affirmative action), termo cunhado em 1963 na gestão Kennedy para indicar a necessidade de promover a igualdade de oportunidades no emprego para negros e brancos nos Estados Unidos
Não foi algo que aceitei sem resistências. Imaginei, e acertei, que haveria apenas representantes de movimentos negros, fiscais com uma tradição de lutas e confrontos com o poder e segregacionismo dos brancos. Ao entrar na sala do treinamento, foi possível imediatamente perceber as reticências de uma banca formada por quatro mulheres negras, nomes de peso na militância negra no Brasil e eu como único branco da banca e, pior, homem. Senti-me constrangedoramente branco, e isso sabendo perfeitamente que, geneticamente, absolutamente nada seria relevante entre o real de meu corpo entrelaçado de raízes negras e o imaginário de minha cara de branco.
O ineditismo dessa experiência em minha vida, mesmo morando há mais de quarenta anos em uma cidade negra, apenas reiterou minha intuição de que a psicanálise no Brasil manteve por décadas um total distanciamento da questão racial brasileira. Contudo, veio dos relatos dos candidatos o mais dolorido. Como é feita essa aferição da auto declaração? Todos os candidatos que ali estavam já tinham sido aprovados pelo concurso na parcela reservada às cotas raciais. Todos se declararam negros, ou seja, pretos ou pardos segundo o IBGE. Mas era necessário fazer a verificação. Nos concursos anteriores foram recorrentes as fraudes em que loiros de olhos azuis insistiam em se passar por negros para conseguir uma vaga. Impossível não pensar o seguinte: os brancos já possuem tantos privilégios e, mesmo quando há uma seleção feita para negros, eles ainda assim querem usurpar estes espaços.
E das 7 da manhã até quase 8 da noite, as turmas, de 10 em 10, se apresentavam à banca. Um a um, tinham que reafirmar de viva voz sua raça: sou preto; sou pardo. A comissão, então julgava, pela aparência – pelo fenótipo para ser mais técnico – se ela condizia com a afirmação. Para quase todos eles confirmamos a auto declaração de raça. Para alguns poucos nos foi impossível definir se eram brancos ou pardos, uma vez que o branco brasileiro nada tem do branco sueco.
Fazia parte da verificação abrir um espaço para que os candidatos falassem do que achavam das cotas e da verificação. Mais eu escutava os relatos, mais eu era tomado por uma culpa que eu não entendia muito bem. Foi a vez em que mais pude ressentir na pela a clássica definição de Freud do sentimento de culpa inconsciente.
Aos poucos, tive que dizer para mim mesmo, a cada escuta: eu sou um psicanalista, eu sou um psicanalista. Quase ao modo de Primo Levi: ainda sou um homem. O fato é que não tinha a mínima chave psicanalítica para saber o que eu estava fazendo ali. As histórias só faziam reforçar o fosso social entre brancos e negros.
A medida que os relatos avançavam, ruía de vez alguma eventual crença de que o regime de cotas fosse um sistema de benesses sociais e que o bom mesmo seria a meritocracia[1]. Vai ser difícil me demover da ideia de que quando alguém argumenta, sobretudo na Bahia, contra as cotas raciais, isso é um argumento de branco. Como ignorar que os dados do IBGE mostram que um trabalhador branco tem um rendimento médio real de R$ 2.660, considerando todas as ocupações, enquanto brasileiros pretos empregados ganham R$ 1.461 e os pardos ganham, em média, R$ 1.480?
Lá estava eu diante de verdadeiros talentos negros, que sempre foram preteridos nas seleções por brancos muitas vezes menos qualificados do que eles. Fomos dignos, acredito. Nenhum afirmou estar constrangido pela aferição, ao contrário, achavam importante. Era fora de cogitação uma verificação fenotípica no sentido de uma craniometria, ou de encontrar medidas, tal como os nazistas faziam com os judeus. Nós da banca nos perguntávamos sempre se aquele ou aquela pessoa seria discriminada na rua, pela polícia ou pelos seguranças de shoppings quando entrassem em alguma loja.
E eram tantos os relatos, tão diversas as situações cujo único ponto em comum era o fato de que pessoas, por serem negras, eram descartadas das seleções, que me fizeram repensar como a psicanálise poderia abordar a questão. No Brasil, Frantz Fanon, leitor de Lacan, é muito menos conhecido do que deveria. Seu clássico, Pele negra, máscaras brancas demonstra, com uma lógica irretocável, a impossibilidade de pensar a psicopatologia dos negros dissociada de todas as violências a que foram submetidos.
2 – Racismo: quando a negação faz sintoma
Acompanhei com atenção a polêmica envolvendo as militâncias negras e o escritor Antônio Risério[2]. Apesar de toda reverência ao intelectual, um de meus ídolos devo dizer, minha leitura da crítica à miscigenação de brancos e pretos feita por muitos, dentre os quais Abdias Nascimento[3], procede. O mito do brasileiro misturado, miscigenado e liberto do racismo oculta, sim, o ideal de branqueamento da população brasileira. Será que alguém acredita na falácia de que a miscigenação visa misturar as raças em um grande encontro sexual nacional? Ora, os brancos continuarão brancos e inspirando um modelo de branqueamento racial, são os pretos retintos o alvo da eliminação. Não deixa de haver certo recobrimento das questões dos negros e das mulheres, ambos ameaçados e segregados, mesmo quando são maioria. A mulher negra, nesse sentido, seria a segregação elevada a uma segunda potência. Tampouco seria forçada, aqui, a aproximação entre os enigmas da sexualidade feminina e a expressão usada por Freud para o horizonte do saber sobre a mulher: um continente negro. Nunca antes havia pensado associar a condição feminina com o silenciar das vozes dos negros.
Ou seja, quando uma jovem militante expõe um cartaz com a frase “A miscigenação no Brasil não foi pacífica, ela nasceu do estupro.”, talvez não se trate simplesmente, como poderíamos deduzir da argumentação de Risério, de uma falta de erudição sobre a questão negra. O mais difícil, quando lidamos com militâncias, é precisamente reconhecer que estas se fazem em torno de significantes identificatórios que não ajudam muito na refutação dialética. Basta ler o capítulo VII de Psicologia das Massas, de Freud. Ele definiu muito bem a lógica da massa militante, ela sempre será estruturada por um processo de redução e aglutinação em torno de traços simples, sem dúvida perigosamente simples. Mas isso é universal, é justo esse o mérito de Freud, sem esquecer obviamente a psicologia das massas pensada por Ortega y Gasset. Passaremos por essa questão tanto ao tentar o diálogo com uma militância negra quanto com um grupo militante de apoio à Kant.
|
Mas… como não ver que o mito da miscigenação aceita homens brancos fazendo filhos com mulheres negras, mas não aceita mulheres brancas fazendo filhos com homens negros? Branco fazendo filho com preta é miscigenação, preto fazendo filho com branca é crime.
Daí a importância de pensar a ação lacaniana, sua política, diante de um tema tão complexo. Minhas –após certo tempo– simpáticas colegas negras da banca custaram a me escutar, sobretudo quando insisti que a psicanálise não é uma técnica elitista, que inúmeros psicanalistas estão nas escolas, favelas e nas ruas do crack. Percebi que qualquer fala teórica seria acolhida como uma arrogância intelectual analítica. Assim, não foi o saber teórico, mas o saber sobre a condição humana de ser objeto que pôde fazer uma diferença. O psicanalista entra nesse debate se for capaz de seguir a recomendação lacaniana de separar o máximo possível o Ideal da causa –separar I de a. Vale perceber que Lacan não diz separação total, e sim maior separação possível. E o que impede este corte radical, a meu ver é precisamente o sintoma. O racismo não é o sintoma, ele faz sintoma.
Certa vez escutei de um pró reitor da Universidade Federal da Bahia, de origem estadunidense, uma história impressionante relatada pelo ator Burt Lancaster. Como não consegui aferir a veracidade da história, fica a fala do pró reitor. Segundo ele, o ator contara que somente se dera conta do racismo que se impregnara em seus próprios filhos quando um dia seu filho pequeno, ao ver um carrinho de bebê com uma criança negra em seu interior disse: Olha papai, um bebê empregada.
E foi assim que consegui me reconciliar com minhas colegas de banca e escutar, sendo o branco da banca, por todo o dia a declaração “Sou negro”. Qual foi a lição? Assim como as marcas genéticas são transmitidas, o racismo também é ensinado de pai para filho. Todos os brancos brasileiros transmitem, mesmo sem se dar conta, algo do racismo para seus filhos. Podemos ser militantes, simpatizantes, teóricos e professores, até mesmo casados com um negro, ainda assim nossos filhos nos verão passar de carro por uma guarita enquanto o carro do negro será barrado. Talvez –apenas talvez, quero frisar– o melhor argumento de defesa do jornalista William Waack[4] não devesse ter sido a afirmação de que não é racista e que tem grandes amigos pretos, mas justamente o contrário: afirmar que todo branco sob as câmeras em algum momento mostrará seu racismo. Passearemos de carro e não pouparemos nossos filhos de ver um ônibus parado enquanto a polícia faz uma blitz. E eles verão todos os negros voltados para o muro com a mão na cabeça. Tudo isso para dizer que não é com o saber teórico psicanalítico que pude me virar nessa banca, mas com a capacidade que os anos de análise me deram para suportar a verdade, em mim, que recuso ver. Reconhecer que sou racista, não porque quero, mas porque no Brasil, ser branco é ser racista, mesmo que não se saiba conscientemente.
Assim como Freud nos ensina que sempre existirá, em cada ser, um sentimento de culpabilidade inconsciente, aprendi dessa vez que sempre teremos que conviver com nosso sentimento de racismo inconsciente. Quando fechamos os olhos para essa verdade, estamos simplesmente trabalhando em nome da homeostasia do princípio do prazer.
Marcelo Veras é psicanalista, reside em Salvador, Bahia.
AME da Escola Brasileira de Psicanálise, Psicanalista, Psiquiatra da Universidade Federal da Bahia, Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ex-Diretor da Escola Brasileira de Psicanálise (2013-15).
Notas bibliográficas:
[1] A política de cotas raciais foi sensivelmente aumentada no Brasil nos últimos 15 anos, sobretudo nos espaços públicos, universidades, empregos públicos etc. Muitos criticam essa política, que teve amplo desenvolvimento sobretudo nos dois governos de Lula e no primeiro governo de Dilma Roussef, dizendo que as cotas colocam pessoas despreparadas nesses postos apenas por serem negras, que na verdade não deveria ser a cor, e sim o mérito o critério para seleção. Contrariamente à essa crítica, as militâncias negras tem provado com resultados o avanço na luta contra a desigualdade racial que essas políticas obtiveram.
[2] Antonio Risério, inconstestavelmente um dos maiores intelectuais da Bahia, criticou parte da militância negra atual, que dizia que a mistura de brancos e pretos no Brasil foi fruto dos estupros das escravas negras por senhores brancos escravagistas.
[3] Abdias Nascimento (1914-2011), Escritor, dramaturgo e politico, negro, uma das maiores referências brasileiras do Movimento Negro Brasileiro. Abdias dizia que no fundo, quando no Brasil se alegava que os impasses do racismo seriam reduzidos com a mistura de brancos e negros, ele refutava que a mistura não visava resolver impasses, mas eliminar os negros tornando o Brasil mais “branco”.
[4] Wiliam Waack é um dos mais conhecidos jornalistas brasileiros. Durante uma transmissão em Washington, não se deu conta de que o microfone estava aberto e, ao ouvir uma série de buzinas de carro na rua disse “isso é coisa de preto”. Essa afirmação, difundida pelas redes sociais, custou sua demissão da Rede Globo e a cólera de toda militância negra nas redes sociais.