Em 1888, passados alguns anos desde a última fatia de seu tratamento com Breuer, Anna O., Bertha Pappenheim, seu nome-próprio de batismo, publicou anonimamente seu primeiro livro infantil de contos de fadas e iniciou seus trabalhos sociais e políticos. Inicialmente, trabalhou na cozinha e em leituras em voz alta em um orfanato gerido pela Associação de Mulheres Israelitas. Em 1896, tornou-se diretora desse orfanato, permanecendo como tal até 1907. Nesse período, reorientou os programas educacionais, impulsionando-os, para além de um casamento futuro para as meninas órfãs, para uma formação e independência vocacional.
Em 1895, data da publicação conjunta por Freud e Breuer de Estudos sobre a histeria, a assembleia da Associação Geral das Mulheres Alemãs (ADF) criou um grupo local sob a responsabilidade de Bertha Pappenheim, que começou a publicar artigos sobre os direitos das mulheres. Ao seguirmos atualmente os sites que nos dão acesso a esses dados históricos do movimento feminista dessa época, descobrimos que em 1902, em uma conferência sobre o combate ao tráfico de mulheres, Pappenheim e uma companheira foram à Galícia investigar a situação social das mulheres. Essa viagem, que durou alguns meses, descrevia em um relatório os problemas surgidos da combinação de um background agrário com a recente industrialização, bem como pela coalizão entre Hasidismo e Sionismo. Com isso, em 1904, a ADF criou uma associação nacional das mulheres judias, para unir os esforços sociais e de emancipação das mulheres judias. Essa associação, a Liga das Mulheres Judias (JFB), foi fundada e dirigida por Pappenheim durante vinte anos e a teve como participante e colaboradora até 1936, ano de sua morte.
A Liga das Mulheres Judias (JFB), se dividia entre uma pauta feminista –fortalecimento dos direitos das mulheres e de sua possibilidade de educação e trabalho– e a aceitação dos objetivos tradicionais da filantropia judaica, que concebia a prática da caridade como um preceito divino. Compatibilizar essas duas posições não foi algo simples para Pappenheim e os conflitos se acirraram bastante quando ela se tornou uma militante contra a white slavery, a escravidão e o tráfico das mulheres judias. Nessa militância, ela não apenas postulou que essas mulheres eram vítimas, bem como questionou a tradição judaica por trata-las como prostitutas e degradá-las. Além disso, acusou os homens dessa tradição como responsáveis pelo que se passava e criticou o modo como as mulheres eram percebidas no Judaísmo. Como membro do movimento feminista alemão, ela se batia pelo ideal de direitos iguais para as mulheres nas instituições judaicas.
A JFB cresceu e com apenas quatro anos de funcionamento já tinha 32.000 membros distribuídos em 82 associações; em pouco tempo, tornou-se a maior organização judaica feminina, contando com 50.000 participantes.
Em 1907, Bertha Pappenheim foi virtualmente acusada de heresia pela ortodoxia judaica, representada pelo rabino Horovitz, um dos líderes de uma organização judaica em Frankfurt. Tal acusação surgiu a partir do escândalo gerado por seu discurso de denúncia e em defesa das mulheres traficadas e escravizadas pelos próprios homens judeus. Para ela, sob a lei judaica uma mulher não era considerada, era julgada e acessada apenas como um ser sexual. No seu discurso, ela responsabilizava a tradição judaica masculina pela existência dessas condições –tráfico das mulheres e negligência com as crianças judias órfãs. Essa realidade era negada pelos judeus politicamente liberais e emancipados, os quais tinham uma atitude patriarcal e tradicionalista em relação aos direitos das mulheres. Bertha foi, então, acusada de insultar o judaísmo e de heresia. Nascida e criada dentro de uma ortodoxia, quando seu feminismo colidiu com o seu judaísmo, ela se defendeu da acusação de heresia, invocando seu orgulho por sua herança judia.
Para sua biógrafa Melinda Guttmann (2001), Pappenheim tentou conciliar a emancipação das mulheres judias com sua profunda piedade religiosa, “a raiva reprimida que a adoeceu nos seus vinte anos transformou-se em uma raiva social nos seus anos quarenta, transformando-a em uma guerreira e em uma matriarca” (GUTTMANN, 2001, p. 181). Lutar contra a prostituição e a escravidão branca não era um assunto para ser levado adiante por uma mulher judia no início do século XX. Portanto, ela encontrou muita hostilidade e pouco suporte, o que a fez se identificar com o personagem mitológico de Sísifo, cuja tragédia vem da consciência da futilidade de seu esforço, o que torna maior a sua punição (ibid., p. 181).
Em 1924, Pappenheim publicou seu mais conhecido livro, Trabalho de Sísifo, um estudo sobre o tráfico de mulheres e a prostituição na Europa Oriental e no Oriente, composto com as cartas que escreveu nas viagens de 1911 e 1912, cartas abertas, distribuídas mediante subscrição por seus amigos em Frankfurt. O objetivo inicial dessas cartas era dar publicidade à decadência moral de cidades como Jerusalém, Alexandria e Moscou. No entanto, ao serem publicadas, sem terem sido editadas, elas também contavam seus sonhos, sua necessidade muitas vezes de dar uma dormidinha e seus encontros pessoais, observações fora do contexto da missão em questão. Com isso, para Guttmann, as cartas revelam “a complexidade da sua autora, lançando luz sobre sua compaixão, sua ferocidade, sua raiva moral, seu orgulho e seu pesar como uma mulher judia, sua obsessão com a beleza e o seu persistente senso de humor” (GUTTMANN, 2001, p. 219).
A referência ao relato de sonhos nessas cartas, publicadas no livro Trabalho de Sísifo, nos leva a Lucy Freeman (1972), a biógrafa mais freudiana de Pappenheim. Ela relata um dos dois únicos sonhos de Pappenheim que chegaram até a posteridade. Na noite anterior a ele, que ocorreu durante uma viagem de navio no Mediterrâneo, ela tivera uma discussão sobre o movimento feminista com um playboy que se mostrara furioso com uma líder do movimento feminista. Nessa ocasião, outro homem, sabendo do seu interesse em investigar a escravidão branca, convidou-a a descer do navio com ele em Beirute, dizendo-lhe: “Eu posso lhe mostrar a depravação.”. Ele lhe perguntou se ela era casada e lhe pediu que tingisse os cabelos brancos de modo a parecer mais jovem. Ela respondeu ao convite com o sonho.
No sonho, ela conta para sua mãe que domesticara dois pequenos chacais [cachorros selvagens e carnívoros, de cor cinzenta amarelada, originários da Ásia e África]. Sua mãe não lhe acreditou, então ela os trouxe até ela. Embora estivesse certa de que eram chacais, ao apresentá-los viu dois gatos nas rédeas e se irritou. Puxou as rédeas. Os dois gatos se transformaram em dois homens, aos quais sua mãe, graciosamente, convidou a se assentarem na sala de jantar no apartamento em que elas moravam.
Ao acordar no dia seguinte, o seu camarote tinha cheiro de chacal, escreveu ela nas suas anotações sobre o sonho. Ainda nessas anotações, observou: “Bem, eu acho que, se eu não fosse tão totalmente sem prática e experiência e não tivesse insistido no meu certificado de nascimento, minha viagem poderia ter tido um final inesperado, romântico” (PAPPENHEIM apud FREEMAN, 1972, p. 242). E concluiu: “Eu tenho desperdiçado amor –não apenas este ano, mas por muitos anos” (ibid., p. 242).
Sobre Pappenheim, diz-se que adorava uma discussão e que, embora sedutora com os homens, ela os fazia dar voltas a seu bel-prazer. Dizia esperar o dia em que as mulheres fariam as leis e os homens iriam parir as crianças! Curiosamente, no sonho os animais não se deixam domesticar tal como ela quisera crer e, também, fazer crer o outro. Sobre isso, é interessante observar que o tema da domesticação, do amansamento, não está ausente da teoria freudiana, seja em sua relação com a pulsão ou com o campo fantasmático. Segundo Hanns (1996, p. 183), o termo bändigen, usado com frequência ao se referir a uma situação de se colocar rédeas em um animal selvagem, aparece várias vezes no texto de Freud para designar um tipo de controle que o eu tenta exercer sobre as pulsões, refreando-as. Freud se serve dele também a propósito da criança intratável (unbändig), que se comporta de forma indócil (unbändig) de modo a provocar um castigo (ibid., p. 186).
Freeman se serve dessa discussão para interpelar as possíveis motivações inconscientes subjacentes à militância feminista de Pappenheim. Ao assinalar a sua insistência na posição daquela que resgata, que salva –resgatar as crianças órfãs, as mães desabrigadas, as prostitutas, as esposas abandonadas, as crianças ilegítimas–, Freeman sugere que o salvador é sempre suspeito, pois aquilo que ele salva tão fanaticamente pode revelar o seu desejo o mais íntimo (ibid., p. 254, 247). Em vista disso, a criança órfã, nascida de uma mulher abusada por um homem e depois abandonada por ele, surge associada à fantasia de gravidez presente no final do tratamento com Breuer (através de uma alucinação na qual as cólicas abdominais foram explicadas por ela como estar trazendo ao mundo o bebê do Dr. B.); as prostitutas não deixariam de estarem associadas as fantasias de prostituição dela própria, etc. Em que pese as diferentes situações em jogo, o elemento constante seria a salvação, o resgate, e o desejo fundamental estaria associado, em última instância, ao nascimento.
Em 1934, dois anos antes de sua morte por um câncer, Pappenheim escreveu o que intitulou “Auto-obituários satíricos”. Esses obituários, redigidos supostamente pela página da família, por jornais da época etc., terminam sempre com a expressão “Que vergonha!”, ou seja, todos teriam se sentido envergonhados pelo modo como ela conduziu sua vida. Entre eles, aquele atribuído aos israelitas diz o seguinte:
Por background e pelo modo como foi criada, uma mulher Ortodoxa que, no curso de décadas e sob a influência de ideias revolucionárias do Movimento Feminista, pensou se separar de suas raízes – frequentemente se conduzindo com hostilidade – embora sem denunciá-las. De acordo com a sua respeitável família – lembramos que seu pai foi um dos fundadores da “Schiffeschul” em Viena – ela deveria ter prestado à Ortodoxia um serviço melhor. Que vergonha! (PAPPENHEIM apud GUTMANN, 2001, p. 311).
A sátira é uma técnica literária ou artística que intervém em determinado tema ridicularizando-o. De modo caricatural, irônico ou sarcástico, produz uma crítica às instituições políticas, morais, aos hábitos ou aos costumes etc. O tom satírico do auto-obituário deixa entrever que a sua militância feminista teria sido um modo particular de ir mais além do pai e da sua ortodoxia. Se isso procede, depois da sua desestabilização aos vinte anos com a doença e morte do pai, com a escritura e a militância feminista ela teria construído uma outra amarração sinthomática que teria substituido a armadura do amor ao pai, trazendo-lhe estabilidade. Ao registrá-lo no seu auto-obituário, ela nos leva a crer que, ao ir além da ortodoxia, ela teria encontrado, tal como Lacan (1975-1976/2007, p. 16), a sua boa maneira de ser herética.
Haeresis, em grego, significa escolha. Para Jacques-Alain Miller (2017/2018, p. 38), o termo herético derivou para uma escolha particular, diferente da escolha majoritária que se referia a uma seita desviante. Se pertencer a uma tradição religiosa era questão de herança, era um modo de se inscrever em uma tradição, fosse ela aquela da família, da cidade etc., o espírito cientificista da modernidade deslocou a ênfase das tradições para a escolha subjetiva, das massas para o indivíduo.
Se a psicologia das massas foi pensada por Freud sob a base de um elemento comum aos diversos sujeitos, um elemento que diluía a individualidade em benefício de uma coletividade, com o deslocamento de ênfase para a escolha particular em detrimento da tradição, da heresia em detrimento da ortodoxia, a escolha subjetiva se desarraiga do comum e beneficia uma concepção de comum solidária com a eficiência e a desvalorização das causas finais (MILLER, 2017/2018). Com a modernidade, passa a vigorar uma alternativa entre o sentido comum, tomado na tradição, e a escolha subjetiva, de tal modo que há liberdade para se escolher inclusive a tradição. Miller observa que o nosso mundo contemporâneo é regido pelo frenesi da escolha, a possibilidade de escolha está aberta a tudo, até ao sexo. Podemos aderir a ele ou não, mas “não sem nos perguntarmos se o reino da escolha será pior do que o do pai, pior do que o sentido comum da ortodoxia” (MILLER, 2017/2018, p. 44).
Se, com o Freud da psicologia de grupos e seu terceiro modo de identificação – a identificação por meio do sintoma –, podemos formular uma política calcada nas identificações, nos ideais, em uma concepção de Outro esvaziado de gozo, Lacan vai propor uma política da desidentificação. Mais do que dar suporte a comunidades construídas em torno de significantes-mestre específicos (S1), sejam eles feministas, gays, lésbicas etc., Lacan parte do corpo articulado ao gozo para sustentar que só ele dá lugar e consistência ao sujeito no discurso universal. Portanto, se a doutrina das identificações freudiana parte do pai e do amor ao pai – a mais remota forma de ligação, anterior a qualquer relação de objeto –, Lacan privilegiará a terceira forma de identificação freudiana – a identificação por meio do sintoma –, realçando aí a não-relação entre o sujeito e o objeto. Ele formula então, tal como nos sugere Eric Laurent, não uma “identificação por meio do sintoma”, mas uma “identificação ao sintoma”, identificação nascida do luto das particularidades do objeto, luto que faz com que o gozo encontre seu estatuto autoerótico e que seja reduzido à repetição do mesmo traço. Aí, o sujeito se identifica mais ao seu gozo do que ao seu inconsciente, ou seja, a qualquer significante-mestre; no entanto, entre o sujeito e o gozo restará sempre uma hiância que faz com que o gozo guarde algo de estrangeiro (LAURENT, 2017, p. 29-32).
Posto isso, podemos concluir que a boa maneira de ser herético é responder por uma escolha na qual se é fiel à particularidade de seu sinthoma, ou seja, responder por uma escolha na qual se é fiel àquilo que se tem de mais singular. Se, como propõe Laurent, “herético for aquele que escolheu seu caminho por onde tomar a verdade para, em seguida, conduzi-la para fora do sentido, de modo absoluto” (LAURENT, 2011, p. 54), acreditamos poder dizer de Bertha Pappenheim que ela se distanciou do sentido comum, escolheu por onde tomar a verdade e operou com aquilo que tinha de mais singular! Não nos surpreende, portanto, que o seu teatro privado tenha dado origem a tantas outras cenas!
Márcia Rosa e psicanalista, reside em Belo Horizonte.
Membro da EBP/AMP. Professora da Pós-Graduação em Psicologia (UFMG), autora de Fernando Pessoa e Jacques Lacan: constelação, letra e livro (2005) e de artigos sobre Psicanálise, Literatura e Psicopatologia em revistas especializadas.
*Apresento aqui um extrato do capítulo 8, “Histeria, sua função social e política”, do livro Por onde andarão as histéricas de outrora? Um estudo lacaniano sobre as histerias, de minha autoria, publicado no Brasil em maio de 2019. Trata-se do resultado de uma pesquisa de pós-doutorado realizada em 2019 na Université de Paris 8, sob a supervisão de Fabian Fajnwaks.
REFERÊNCIAS
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FREEMAN, L. The story of Anna O. New York: Walker and Company, 1972.
FREUD, A. (1922) Fantasme d’être battu et reverie. In: HAMON, M.-C (dir.), Féminite Mascarade. Paris: Seuil, 1994. p. 57-75.
FREUD, S. (1893-1895) Estudos sobre a histeria. Rio de Janeiro: Imago, 1974. p. 11-308. (Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, 2.)
―. (1921) Psicologia de grupo e análise do ego. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 89-182. (Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, 18.)
GUTTMANN, M.G. The enigma of Anna O. A biography of Bertha Pappenheim. Wickford, Rhode Island & London: Moyer Bell, 2001.
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LACAN, J. (1975-1976) O seminário, livro 23: O Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
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