Marcus André Vieira – A janela, o estranho e a cidade

I. Realidade

O tema da janela tem longa história no ensino de Lacan. Um primeiro aspecto é uma analogia, a de tomar a consciência, a estrutura do ego, como a de uma janela. Não no sentido de proteção ou barreira, mas de recorte. Assumimos que é preciso, para suportar o excesso de estímulos do real, para sair do “sem recursos” da criança freudiana, de óculos. Não para ver melhor, mas para ver menos. A cultura, ou simbólico como dizemos às vezes, é o enquadre que nos permite discernir coisas, colocar algumas sob nosso foco enquanto outras se perdem, fora de cena. Neste sentido a janela equivale a um par de óculos1. É todo um modo de estar no mundo. Seria ele exclusividade do recalque, da estruturação neurótica da vida? A discutir. De toda forma, quando a realidade psíquica e a fantasia, no sentido que lhe dá Lacan, são constituídas por esse jogo, o do par janela – por fora da janela é quase impossível viver a vida sem ele. Nesse contexto, é uma tentação pensar que uma análise se interessa pelo que não se vê da janela da consciência, pelo que ficaria de fora. Não é bem assim. A célebre definição freudiana do inconsciente como Outra cena é relida por Lacan para mostrar que, como tantas outras, não é bem o que parece ser. O perigo é entendê-la apenas como cena oculta. O analista se liga a alguma coisa que não se vê, não acessível diretamente pelo esforço consciente, mas não a imagina como uma cena que, para ser vista, bastaria que se deslocasse o ângulo da câmera2. A Outra cena do inconsciente não é nem mesmo quando alguém abre para nós seus armários e vemos uma cena secreta, feita de objetos escondidos nos porões da existência. A chave não é tanto onde estão os objetos, é o regime de desrealização que instaura uma análise e não a realidade alternativa que ela desenterraria.

 

II. Estranheza
É o espaço da estranheza e seus objetos que contam. Para isso, não basta procurar o fora de cena, mas sim a desrealização que nos interessa e que acontece apenas em situações especiais3. A mais comum ocorre quando duas cenas, duas realidades se contrapõem e torna-se indecidível saber em qual cena estamos. Na indecisão entre a paisagem comumente representada e a que nossos olhos apresentam, surge a estranheza. É o que mostra a célebre situação de Freud. No trem, caminhando no corredor buscando sua cabine, vê chegando um senhor antipático até descobrir que é ele próprio refletido no vidro. Instaura-se um espaço entre Freud e Freud, o da estranheza de Freud diante da antipatia dele mesmo para com ele mesmo. O que importa, porém, é que o a desrealização vem apresentar, neste exemplo a rabugice de Freud e que lhe traz um aspecto inesperado de si mesmo. De maneira análoga, a perturbação da realidade sustentada pela presença “entre-dois” do analista, esse tão íntimo e tão estranho personagem, convoca lembranças, representações ao modo da antipatia de Freud. São coisas também feitas de elementos híbridos, colagens, fragmentos, tudo o que Lacan chamou de resto, dejetos a serem descartados, mas que não conseguimos jogar fora e que vão morar no “entre-dois” do recalque. Por seu poder desestabilizador da realidade, esses elementos produzem revoluções, forçando reconfigurações do ego. Lacan reúne todas as características deste tipo de objeto em uma só letra ao denominá-lo objeto a, estranho objeto da psicanálise4.

 

III. On-line
Até ontem, a presença do analista, física quase sempre, quase sempre indefinida, instaurava esse espaço de estranheza praticamente por si só5. O que lhe acontece, porém, quando precisamos prescindir do corpo no ambiente virtual? É preciso primeiro notar o quanto a situação especial e relativamente rara de Freud é hoje nosso quotidiano. Vivemos na pandemia todo o tempo entre a janela da casa e a do computador ou do celular. Já era nossa vida desde antes, mas o isolamento nos instaura radicalmente nesse “entre”. Não só entre janelas, mais ainda entre o antes e o depois da epidemia. Habitamos agora o espaço perturbado, que até então encontrávamos apenas raramente, esse espaço desrealizado tornou-se nossas vidas. Não à toa há tanta estranheza e angústia nesses tempos. Como, já que a estranheza não é mais uma operação do analista, está em toda parte, fazer valer sua presença? A questão crucial da análise on-line me parece se concentrar nesse ponto, bem mais do que na presença ou não do corpo. Mesmo antes, não bastava estar fisicamente presente para que o estranho do corpo se apresentasse, no entanto, a presença do analista como coisa indefinida, parece ainda menos garantida, o que não significa que não possa haver análise on-line6.

 

IV. Olha e voz
Há outro objeto a fundamental, não mais no campo visual, a voz. Bem mais difícil falar dele, mesmo assumindo que ele também se insinua no entre-dois da estranheza. Seguindo o mesmo raciocínio empreendido para o campo escópico, o de sua estruturação ao modo cena por fora de cena, tendemos a pensar que haveria um jogo entre o que se ouve e o que não se ouve, mas que poderia ser acessado. Como se houvesse uma cena musicada, por exemplo a melodia, e um fora de cena, que se apresentaria como ruído, ou ainda um detalhe oculto da entonação, prosódia, etc. A experiência auditiva resiste a este modo de estruturação porque se estabelece não como descontinuidade, como o olhar, mas em um regime de continuidade. Sempre se ouve alguma coisa. Não é como na visão em que basta fechar os olhos para que a cena desapareça. A paisagem sonora não desparece nem mesmo se tapamos os ouvidos7. A presença do Outro se objetaliza como olhar e voz, mas de modos distintos8. Para o objeto voz, de Lacan, como apresentação da presença do analista e de seu poder de interpretação, será preciso pensar menos em ternos de dentro e fora, visível e invisível e mais de ritmo e intensidade. Por isso é preciso todo um trabalho, até certo ponto artificial, para instaurar um fora de cena sonoro. Quando durmo com o ar condicionado ligado, por exemplo, crio um “fora” artificial, que não se faz entre som e silêncio, mas entre sons aleatórios perturbadores e um som contínuo pacificador. Aquele rom-rom elétrico vem instaurar um “dentro-fora” que não existe por si só. Então o objeto que nos interessa ganha outro aspecto. Melhor falar, em vez de objetomancha, de uma presença não exatamente ouvida, mas pressentida. Uma coisa que se insinua, que é presença pressentida. Que melhor exemplo dessa presença pressentida que a do vizinho que faz sons estranho ao lado? Ou ainda no panelaço?

 

V. Paranoia
Por isso a voz é sempre meio estranha, de alto poder desrealizador. Por esta continuidade precariamente moebiana entre dentro e fora, vale interrogar se, ao abordar o objeto voz, do mesmo modo que abandonamos em parte a estrutura janela por fora da janela, da fantasia, não somos levados a abandonar o paradigma da neurose, passando a ter a psicose como referência9. Afinal, todo o trabalho do psicótico, ao menos em sua versão paranoica é definir um dentro e fora estável ao expulsar a presença estranha do Outro, seu gozo, que o aflige, delimitando-a como externa ao modo de uma voz que o insulta – ainda invasiva, mas agora externa. O insulto, e o ódio paranoico podem ser uma chave de leitura para nosso mundo (fim de mundo), que não tem mais dentro e fora estáveis. Vivemos numa multiplicação infinita de janelas que abrimos a cada dia na tela. Neste contexto, muitos seguem a macabra escolha de definir um “nós” ao modo do “nós contra eles”. As redes, com seu binarismo de base contribuem para sustentar o discurso paranoico em escala coletiva. Como, porém, a presença que se quer expulsar está sempre, igualmente dentro, será preciso o tempo todo e por todos os meios vociferar buscar eliminá-la.

 

VI. Outra estranha coisa
Não vejo sentido retomarmos estes temas sem quebrarmos também a cabeça sobre como e de que lugar eles podem participar de uma ação coletiva de mudança da situação concreta do país. Não porque teríamos certeza de uma contribuição válida, mas porque é necessidade vital. Quando tudo que resiste a se definir ao modo “pão-pão, queijo-queijo” torna-se inimigo e ser destruído ou massa a ser eliminada, como ainda sermos difusores irônicos de estranheza, catadores de objetos estranhos?10 Quase em contraponto com tudo o que foi dito até aqui, creio que precisamos defender a realidade. Sabemos que ela é um sonho, nosso trabalho habitual é o de desrealizá-la, mas hoje, diante de tanta fragmentação, talvez tenhamos que escolher ao menos uma e reafirmá-la. Qual seria, então, o comum que nos apoie? Um nós que nos reúna? Entendo como o do humano tomado como podendo ser outra coisa do que é. Essa não seria a possibilidade de um laço social cujo fundamento seria a estranheza? Não seria a estranheza bem mais viva e aberta que a paranoia ambiente? Não se trata de buscar Outra cena como realidade alternativa, mais ou menos utópica, mas sim a possibilidade das coisas, na distopia em que vivemos, sempre poderem ser Outra coisa. Na luta contra a necropolítica assim como na contramão do identitarismo ao modo americano, é preciso sustentar a todo instante, como em nossa clínica, que um pobre possa ser outra coisa que não pobre, ou um negro, ou uma mulher.

 

Marcus André Vieira é psicanalista e psiquiatra, reside no Rio do Janeiro

Membro AME da Escola Brasileira de Psicanálise, da qual foi presidente e é  membro da Associação Mundial de Psicanálise, da qual foi conselheiro;  É ex AE. Doutor da Universidade Paris VIII, Professor assistente  do departamento de Psicologia da Pontífice Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio); Último livro publicado “A escritura do silêncio” (Buenos Aires, Três Haches, 2018) e de numerosos  artigos  em revistas especializadas. Colunista do Blog da Subversos.

 

*Esse texto reúne o essencial de minha apresentação no primeiro encontro virtual do Seminário Clínico da EBP-Rio, com alguns acréscimos da apresentação do mesmo tema na atividade preparatória para o XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano (disponível em https://www.youtube.com/watch?v=tmSzVsMGd2k&t=2196s). O que se lerá, deriva diretamente das conversas com Romildo do Rêgo Barros na preparação do seminário, assim como com Nohemí Brown a quem agradeço.

 

Notas:
1 Aqui vale o exemplo de Win Wenders no filme “Janelas da alma” várias vezes citado por Romildo e por mim mesmo. Ele lembra quando colocou lentes de contato e não suportou o excesso de visão, foi preciso voltar para o enquadramento de seus óculos de míope.
2 Esse tipo de cena que promovem tantos famosos em suas lives em tempos de quarentena. Vemos o interior da casa, tudo alegre, limpo e fofo. Esse tipo de cena complementar, apaziguadora é “outra”, mas não a que nos interessa.
3 Por exemplo, como produz a série de telas de Magritte denominadas “A condição humana”, trabalhado por Romildo no seminário clínico da EBP-Rio.
4 Para homenagear o grande Aldir Blanc, quero destacar um desses objetos no bolero, Dois para lá, dois para cá, inesquecível na voz de Elis Regina. Um homem tira sua diva para dançar. No ambiente de realidade perturbada do salão da boite, “sentindo frio em minha alma”, com a cabeça “rodando mais que os casais”, a descrição da musa, entre ideal e cafona, delimita com precisão esse poder de estranheza do entre-dois, que atravessa toda a canção e se concentra no objeto que se introduz no clímax de sua descrição: o seu perfume gardênia, no dedo um falso brilhante, brincos iguais ao colar e a ponta de um torturante band-aid no calcanhar. Como em uma análise a estranheza precipita um objeto singular, que toca o inseguro dançarino da canção analisante como nenhum outro e faz com que ele nunca mais seja o mesmo depois desse encontro.
5 O analista se insinua como presença indecidível. Isso pode ser feito pelo silêncio. Um silêncio que abra o espaço do estranho. Parece difícil, mas não é, basta que o analista não acredite a 100% que a realidade vivida no dia a dia é o real que interessa, nem que o material inconsciente é em si o real. Vale mais o que surge no entre-dois.
6 Além disso, a estranheza no isolamento se desloca para o que está entre mim e o próximo. Entre mim e minha esposa ou filhos, ou o vizinho. É preciso, na sessão, online ou não, materializar o objeto estranho, que nos interpreta e nos reconfigura.
7 Por isso instaurar um fora de cena sonoro é muito forçado, quando durmo com o ar condicionado ligado crio um fora de cena, mergulho no meu quarto, mas aquele ronron elétrico não é silêncio, vem forçar um dentro fora que não há por si só.
8 Em meu livro A escrita do silêncio, propus essa diferença em termos de objeto olhar / janela/ fantasia de um lado, e voz / sinthoma / vizinhança, de outro.
9 Cf. Miller, J. A. El Outro que no existe y sus comitês de ética. Buenos Aires: Paidós, 2005, p. 77.
10 Lacan, em “Lituraterra”, já dizia que o ocidente (hoje diríamos o mundo eurocêntrico) é fundado no assassinato. Contrapunha a ele o oriente, em que um traço não é rasura, apagamento, mas marca de gozo. Com A. Mbembe, diríamos de outro modo: se a pólis eurocêntrica se constrói a partir de uma necropolítica, no Brasil, vemos como a necrópole do capital, em sua versão paranoica, pode ser suicida.

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